Após 23 sofridos anos, o Nottingham Forest está de volta à Premier League

 

Steve Cooper, um dos principais responsáveis pelo acesso (Foto: Divulgação/NFFC)

Já escrevi alguns textos aqui no blog, em que critiquei o Inter, mas agora, chegou o momento de falar do meu outro time de coração: o Nottingham Forest. Neste domingo, na decisão dos playoffs, o Forest venceu o Huddersfield por 1 a 0 e, depois de 23 anos, garantiu o seu retorno para a Premier League.

A última participação na elite, havia sido na temporada 98/99, quando acabou na lanterna. Depois disso, o time viveu um calvário, com dívidas, disputou a terceira divisão por três anos, até voltar à Championship. Em duas ocasiões, o Forest chegou aos playoffs, mas caiu na semifinal.

Estabelecido na Championship, foram diversas campanhas medíocres, muitas vezes, lutando contra o rebaixamento. A família Al-Hasawi, do Kuwait, que presidiu o Forest por seis anos, foi alvo de diversas críticas por parte dos torcedores. A constante troca de treinadores, contratações de jogadores questionáveis, somado ao desempenho ruim dentro dos gramados, eram as principais reclamações.

A maré só passou a virar a partir de 2017, quando o clube foi vendido para Evangelos Marinakis, também proprietário do Olympiakos. Por mais polêmico que o grego seja, colecionando uma série de polêmicas em seu país, como casos de manipulação de resultados e até uma suspeita de ligação com o tráfico de drogas, foi com ele, que o torcedor do Forest passou a ter um olhar mais positivo sobre o futuro da equipe.

A temporada 17/18, a primeira sob o comando de Marinakis, não teve um saldo tão positivo com o 17° lugar no campeonato. Porém, a nona posição no ano seguinte, com o time na metade superior da tabela, longe da briga pelo descenso, animou mais os fãs. Só que nada foi mais dolorido do que o sétimo lugar em 19/20, quando o Forest dependia apenas dele para ir aos playoffs, mas uma derrota de 4 a 1, em casa, para o Stoke City, fez com que o clube fosse superado pelo Swansea na última rodada.

Quando Chris Hughton chegou para assumir a casamata no início da temporada 20/21, muitos torcedores se iludiram, afinal, o treinador era considerado um especialista em acessos, conquistando a promoção para a primeira divisão em duas oportunidades. É, deu errado, e o time terminou na parte de baixo da tabela, em 17° lugar.  

Só que antes da atual temporada começar, o clube passou por uma grande reformulação na sua direção. A principal vinda foi a de Dane Murphy, novo CEO. Além disso, um teto de gastos foi colocado em prática, para evitar os erros dos outros anos. Nas contratações, foco principalmente em jogadores jovens, pensando em uma venda futura.

No papel, inicialmente, a ideia parecia ser muito boa, mas na prática, a temporada começou da pior maneira possível, com o Forest somando um ponto nas primeiras sete rodadas. Não deu outra e Hughton foi despedido. Na penúltima posição da liga, parecia que o objetivo era brigar para não cair, mas aí veio Steve Cooper. O treinador se encaixava perfeitamente na visão do clube, campeão mundial sub-17 com a Inglaterra em 2017, o técnico tinha como característica trabalhar com jogadores jovens, e já tinha duas participações nos playoffs sob o comando do Swansea, incluindo uma final.

Se com Hugthon o futebol do Forest era extremamente burocrático e chato de se ver, a mudança de postura com Cooper foi notada de imediato. Atuando com um esquema de três defensores, o time jogava com suas linhas bem adiantadas, em que só o goleiro e um dos zagueiros ficavam na defesa, os outros dois, participavam da organização ofensiva. Os volantes tinham liberdade para ir ao ataque e serem o elemento surpresa dentro da área adversária, e o ataque, sempre em movimentação constante, para confundir a defesa do rival.

Como era ideia do projeto, muitos jogadores jovens chegaram. Brennan Johnson, cria das categorias de base, se destacou em empréstimo no Lincoln, foi aproveitado por Cooper e terminou como artilheiro do time: 19 gols e eleito o melhor jovem da Championship. James Gardner, que já estava no clube temporada passada, teve seu empréstimo renovado junto ao Manchester United e o grande achado, Djed Spence, lateral-direito, que estava no Middlesbrough e ganhou o prêmio de melhor jogador da temporada. Para equilibrar a juventude e experiência, veio Steve Cook, zagueiro de 31 anos, que estava no Bournemouth.

Nos primeiros cinco jogos, quatro vitórias e um empate. A boa arrancada já foi o suficiente para se afastar do rebaixamento e ocupar o 16° lugar na tabela. A recuperação seguia, quando a partir da 31° rodada o Forest entrou na zona de playoffs e deixou o sonho pelo acesso vivo.

Em determinado momento da temporada, ocupando o terceiro lugar, até um acesso direto parecia possível, mas a derrota no duelo direto contra o Bournemouth e um empate na última rodada frente ao Hull City, fez o Forest terminar a Championship no quarto lugar. Com a vaga nos playoffs garantida, o adversário na semifinal seria o Sheffield United.

A primeira partida, no Bramall Lane, triunfo de 2 a 1 do Forest. O jogo poderia ter acabado com uma vitória muito mais confortável dos visitantes, mas o importante era sair com a vantagem. No City Ground, Brennan Johnson deixou o placar ainda mais elástico, só que o Sheffield buscou a virada e o confronto foi para os pênaltis. Samba foi fundamental ao pegar três cobranças.

O Huddersfield seria o adversário na decisão em Wembley. Diante de 80 mil torcedores, Yates marcou o gol do acesso do Forest. Vale destacar ainda, que o Huddersfield havia acabado em terceiro na Championship.

Lógico que falar sobre o que o Nottingham Forest poderá fazer na Premier League ainda é muito cedo. A vitória nos playoffs, fez o clube embolsar a bagatela de 160 milhões de libras, ou 1 bilhão de reais. Como não possui grandes dívidas, é possível sonhar com alguns investimentos de mais impacto. Por agora, o mais importante seria buscar as contratações em definitivo de Spence e Gardner.

Nos últimos anos, a maioria dos times que subiram, quando gastaram muito dinheiro em contratações, foram rebaixados logo na sequência, basta ver o Fulham em 20/21 ou o Norwich na última edição da liga. Em contrapartida, o Brentford, que gastou bem menos, mantendo a base do elenco, e fazendo investimentos pontuais, conseguiu um sólido 13° lugar  em sua primeira temporada na Premier League.

No comando técnico, talvez possa acontecer um problema. Na gestão Marinakis, Cooper é o sexto treinador que passou pelo City Ground. Ou seja, o grego tem o pavio curto, e, talvez, na primeira sequência ruim na elite, Cooper possa ser demitido. Depois dessa temporada tão boa, a comissão técnica precisa seguir, e com a chegada de novas contratações, ainda necessitam de tempo para entrosar, até o time deslanchar.

Outro ponto importante, foi antes do começo da temporada, a diretoria admitir que haviam coisas erradas no comando do clube. Ter contratado Dane Murphy foi um tiro certeiro. O americano, mesmo tendo apenas 36 anos, foi responsável por colocar ordem na casa. Sua gestão foi tão boa, que recebeu o prêmio de melhor CEO da temporada inglesa.

Na internet, após o Forest confirmar o acesso, houve muito debate na internet, falando que a Premier League nunca deveria ter perdido um time com o Forest, que é muito mais tradicional do que alguns clubes. Para estar na elite, você precisar chegar até lá por méritos, e não apenas por nome. Como torcedor, que acompanhou os últimos anos, em nenhum momento, merecemos estar na primeira divisão, com tantas coisas erradas que haviam por lá. Bastou encontrar um técnico que casasse com a filosofia da direção, concertar os erros do passado, para não repeti-los e pronto, voltamos à primeira divisão.

Por agora, vamos aproveitar o momento e comemorar o acesso. Mais para a frente, pensamos no futuro.