| Medina em sua estreia no Inter (Foto: Ricardo Duarte/SCI) |
Um dos
propósitos de quando criei esse blog, era que eu me atentaria a falar sobre as
coisas que acontecem dentro do campo, fugindo da parte política, porque é um assunto
que não gosto de abordar e sempre levanta polêmicas. Só que logo no segundo
texto, precisarei entrar nesse assunto, para falar do que está acontecendo com
o Internacional. Por mais que seja o time que eu torça, é inegável que o clube
tenha colecionado insucessos ao longo dos últimos anos e o pior, não dá para se
ter uma perspectiva animadora para o futuro.
Antes de tudo,
precisamos voltar no tempo. O Movimento Inter Grande (MIG) presidiu o Inter por
18 anos. Ou seja, os maiores momentos da história do clube, como o bicampeonato
da Libertadores, Mundial de Clubes e Copa Sul-Americana foi com o MIG no poder.
Só que nem de glórias se vive um clube, e com esse mesmo grupo político, o
Inter amargou seu primeiro rebaixamento no Brasileirão, na temporada 2016. Sob
o comando de Vitório Piffero, o torcedor viu sua equipe ser investigada pelo
Ministério Público, sob a suspeita de desviarem dinheiro da instituição,
lavagem de bens, estelionatário e organização criminosa.
Mesmo diante do
cenário de caos, o MIG foi reeleito para 2017, agora com Marcelo Medeiros na
presidência. Apesar de uma série de resultados ruins, perdendo a final do
Gauchão para o Novo Hamburgo e sequer vencer a Série B, não dá para negar que
alguns bons jogadores foram contratados, principalmente Cuesta e Edenilson.
Guardem esses nomes.
De volta à
primeira divisão, o time treinado por Odair Hellmann conseguiu acabar o
Brasileirão em um honroso terceiro lugar. Mas na Copa do Brasil, conseguiu ser
eliminado para o Vitória e parou nas quartas-de-final do estadual, caindo para
o Grêmio.
Em 2019, o
Inter chegou na final da Copa do Brasil, seria a grande chance de acabar com o
jejum de grandes títulos, que perdura desde 2011. Diante de um bom Athletico
Paranaense, os gaúchos sucumbiram e perderam os dois jogos, 3 a 1 no placar
agregado. No estadual, foi superado pelo Grêmio na decisão.
Só que o grande
acerto da gestão Medeiros, veio em 2020. O Internacional anunciou Eduardo
Coudet como novo treinador. Era uma clara quebra de ruptura, com um técnico que
joga com linhas altas e pressionando o adversário. Em campo, por mais que se
visse uma clara evolução, alguns resultados preocupavam o torcedor. Pela
primeira vez na história, Inter e Grêmio estariam no mesmo grupo na
Libertadores. Além de terem decidido a final do segundo turno do Gaúchão. Foram
três vitórias do Grêmio e um empate.
Coudet
reclamava que o elenco era curto e faltavam opções. Rodrigo Caetano,
diretor-executivo na época, teria negado uma série de contratações pedidas pelo
técnico. Mesmo com o Inter na liderança do Campeonato Brasileiro, o treinador
pediu demissão e rumou ao Celta de Vigo.
A direção
recorreu a Abel Braga para o comando técnico. Por mais que Abelão seja o maior
treinador da história do Inter, o estilo de jogo do treinador era completamente
diferente do antecessor, além dos últimos trabalhos questionáveis em Vasco,
Flamengo e Cruzeiro. O início não foi fácil, com eliminações na Copa do Brasil
e Libertadores. Só que depois, o time embalou nove vitórias seguidas no
Brasileirão, mas derrotas para Sport e Flamengo, fizeram o colorado ser
vice-campeão nacional.
No final de
2020, houve eleição no Inter. A torcida cansada dos insucessos do clube, os
sócios elegeram Alessandro Barcellos, da chapa O Inter Pode Mais, com 56,8% dos
votos. Uma prova que todos queriam uma mudança na estrutura do clube.
A primeira
mudança foi na casamata e já gerou controvérsia. Abel Braga deixou o clube e
contratou o espanhol Miguel Angel Ramirez, que foi campeão da Sul-Americana com
o Independiente de Valle. Só que o treinador, apesar de um bom início, seguiu
com a sina dos últimos anos e perdeu os dois clássicos contra o Grêmio pelo
estadual, sendo vice mais uma vez. Depois de um dos jogos contra o grande
rival, houve uma polêmica com Edenilson. O camisa 8 disse que em clássico, é
preciso baixar as linhas e que faltou inteligência. A declaração não teria caído
bem entre os dirigentes.
Na
Libertadores, o time de Ramirez foi líder do grupo, dez pontos e algumas boas
atuações, em especial o 6 a 1 sobre o Olímpia. Mas no Brasileirão, Ramirez não
passou da segunda rodada, O espanhol tinha só um ponto e após uma derrota de 5
a 1 para o Fortaleza, o espanhol foi demitido. Diego Aguirre, após cinco anos,
retornou ao comando do Inter.
Com Aguirre,
mesmo que aos trancos e barrancos, parecia que o Inter conseguiria uma vaga na
Libertadores, só que depois de vencer o Grêmio, na 30° rodada do Brasileirão, o
time simplesmente desmoronou e venceu apenas um jogo. 12° lugar, com cinco
pontos de vantagem para a zona de rebaixamento.
Sem mostrar
poder de reação, Aguirre foi demitido. Só que as buscas por um treinador para
2022 foram extremamente conturbadas. Inicialmente, ao que tudo indicava, os
alvos eram Alexander Medina e Eduardo Dominguez. Só que o foco mudou para Paulo
Sousa, português que treinava a Polônia. Mas a indecisão do treinador europeu
fez o colorado desistir da negociação e abrir caminho para o Flamengo concluir o
negócio. No final das contas, quem veio para o Beira-Rio foi Alexander “Cacique”
Medina, do Talleres.
Depois do
fiasco do Inter no campeonato nacional, Barcellos disse que era hora de renovar
o elenco. Patrick e Lomba, alvos da torcida, rumaram para São Paulo e Palmeiras.
Parecia que ia haver uma limpa no vestiário. Lembram quando eu disse para
guardarem o nome de Cuesta e Edenilson? Então, os dois jogadores, que também
tem sido alvo de críticas, tiveram seus vínculos renovados. Moisés, outro
contestado do elenco, pertencia ao Bahia, passou as últimas duas temporadas
emprestado ao colorado, foi comprado e ficará em definitivo no Beira-Rio. Mas
nenhum caso foi pior que o de Rodrigo Lindoso. O volante tinha contrato com o
clube até o final de 2021. Renovou e foi emprestado ao Ceará, pagando R$70 mil
mensais. Ou seja, um atleta que poderia ter sido dispensado, custará aos cofres
do Inter quase R$700 mil reais até o fim do ano.
Voltando ao
caso Edenilson: o volante foi tentado pelo Al Hilal, da Arábia Saudita, em
2015. Uma proposta R$15 milhões foi recusada. No meio de 2021, outro time
saudita apareceu, o Al Shabab, com valores muito parecidos, R$15;5 milhões, que
também não foi aceita. Mais recentemente, foi a vez do Atlético Mineiro tentar
a contratação do jogador. O Inter nem quis abrir negociações e renovou com o
jogador até 2024.
Indo para o
campo, com Medina, o Inter não empolgou em nenhum momento. A primeira fase no
Gauchão foi pobre: terceiro lugar e apenas cinco vitórias em 11 jogos. Na Copa
do Brasil, um vexame ao ser eliminado pelo Globo-RN, time da Série D e que
vinha de goleadas sofridas de 5 a 0 para Bahia e Ceará na Copa do Nordeste. O
melhor momento foi ter ganho o Gre-Nal da primeira fase do estadual, em que o
time jogou bem, criou uma série de oportunidades e venceu por 1 a 0.
Medina recebeu
mais reforços do que os últimos treinadores, porém, o que se vê é um time
apático. Tendo muito mais posse de bola do que o adversário, mas sem criar
chances concretas de gol e que não mostra poder de reação. Quando sofre o
primeiro gol, a equipe sucumbe totalmente e pouco faz para conseguir se impor
no jogo.
Se a atuação no
Gre-Nal na primeira fase merece elogios, não pode-se dizer o mesmo no primeiro
jogo da semifinal. No Beira-Rio, o Grêmio foi objetivo e venceu por 3 a 0. No
estádio do rival, o Inter até venceu por 1 a 0 e encerrou um incomodo jejum que
durava desde 2014 sem vencer na Arena, mas quem carimbou a vaga para a final,
foi o Grêmio.
O problema não
é apostar em técnico estrangeiro. Vi na internet pessoas dizendo que era uma
vergonha um time como o Inter contratar treinador do Del Valle ou Talleres. Se
possui boas ideias e tem um estilo de jogo interessante, a aposta é super
válida. A principal questão aqui é que para se fazer uma ruptura, você precisa
de dinheiro para reformular o elenco, que não é o caso do Inter. Esse time só
conseguiu render e ter bons resultados nas mãos de treinadores reativos e para
“quebrar” esse estilo, não vai acontecer em um ano.
A declaração do
Edenilson, falando para baixar as linhas após o Gre-Nal, é a grande prova de
como esse time gosta de jogar. Também mostra como o elenco dominou o vestiário,
que só querem treinadores que joguem do jeito que eles querem.
Quando Ramirez
veio, admito que parecia ser uma boa opção para treinar o Inter. Com um time
que até alguns anos atrás era irrelevante no cenário continental, ele levou o
Del Valle ao título da Sul-Americana. Em um lugar mais estruturado, tinha tudo
para fazer um trabalho interessante.
Por mais que
Medina tenha ganhado uma sobrevida após a eliminação no Gauchão, sabemos que sua
permanência tem data de validade. Se o início do Inter no Campeonato Brasileiro
for ruim, Cacique está fora. E se precisar de um técnico? Vai atrás de quem? Um
estrangeiro tem que ser descartado, porque essas apostas, já se mostraram erradas.
Hoje, o nome ideal para treinar o Inter se chama Odair Hellmann. Por ter
trabalhado no clube e com uma boa parte desses atletas, é a opção mais sensata.
Outras opções como Lisca, Carille ou Mano Menezes, se aparecerem no Inter,
seriam uma surpresa - negativa.
Em suas
promessas de eleição, Barcellos prometeu que queria o elenco composto por 40%
de jogadores da base. Coisa que não vimos em nenhum momento e os meninos
praticamente não recebem oportunidades. Todo início de temporada vários jovens
sobem para o time principal, eles só treinam e voltam para a base novamente. O
Inter venceu a Copa São Paulo de 2020 e o único jogador que foi aproveitado no
time de cima foi o Praxedes, que nem no elenco está mais.
A manutenção de
jogadores que não tem mais clima para seguir no Inter incomoda também.
Edenilson já pediu duas vezes para ser vendido e mesmo assim, renovam o
contrato com ele. Com Medina, jogou de volante, ponta e meia, não rendeu em
nenhuma posição e está totalmente fora de sintonia com o restante do elenco. Cuesta
e Moisés continuarem no elenco, também não faz sentido. O argentino, em jogo
grande, sempre apronta alguma e compromete. Já Moisés, mesmo que raramente, até
produz algo no ataque, mas defensivamente, os adversários fazem o que querem
pelo lado esquerdo.
Sobre Paulo
Bracks, o antigo diretor executivo, é mais um erro para colocarmos nessa lista.
Ele veio após um bom trabalho no América Mineiro. Com todo respeito ao coelho,
mas trabalhar em um clube como o Inter, é diferente. Diversos nomes foram
sondados, Barco e Bryan Rodriguez, por exemplo. De acordo com a imprensa, todos
esses jogadores estavam próximos de vir para o colorado, e pela lentidão do
dirigente, não vieram. Nikão - olhando agora pelo que está fazendo no São
Paulo, foi bom não ter vindo -, mas se estivesse jogando a bola que jogou no
Athletico Paranaense, seria outro atleta que tínhamos tudo em mãos e não fechamos.
Para dizer que
eu não fui negativo o texto todo, um dos poucos acertos dessa direção, foi ter
contratado Fabrício Bustos, do Independiente. A lateral-direita, tem sido um
ponto fraco da defesa colorada e a chegada de um jogador com passagem por
seleção argentina e com apenas 25 anos, faz o torcedor ter um pouco mais de
tranquilidade nesse setor.
Eu não moro em
Porto Alegre para acompanhar o dia-a-dia do Inter, mas essa série de decisões
erradas e um grupo de jogadores que dominou o vestiário lembra muito o que
aconteceu com os últimos times grandes que foram rebaixados.