Mesmo com a permanência, o Hertha Berlin precisa rever seu projeto esportivo

 

Jogadores do Hertha comemoram a permanência na Bundesliga (Foto: Divulgação/HBSC)

Paris, Londres, Madri, citando só algumas das principais capitais da Europa que são importantes no cenário futebolístico. O que chama a atenção é a ausência de Berlin, na Alemanha, que, com o Hertha Berlin, até conquistou o campeonato Alemão em 1930 e 1931, quando a liga ainda nem era a Bundesliga. Na Pokal, apesar de nunca ter sido campeão, viveu uma situação insólita em 1992, quando foi vice-campeão, com o time B chegando até a decisão do torneio.

No cenário europeu, o Hertha pouco fez. Sua última participação em algum torneio continental foi na temporada 16/17 da Liga Europa, mas foi eliminado ainda 3° pré-classificatória para o Brondby, da Dinamarca.

Com campanhas medianas na Bundesliga, a Velha Senhora foi notícia na Europa em 2020, quando o empresário Lars Windhorst comprou 49,9% das ações do clube e, com isso, passaram a fazer um pesado investimento em reforços.

A situação no campeonato não era confortável, com o Hertha brigando na parte de baixo da tabela. Os investimentos foram imediatos e chamaram a atenção. Na janela de janeiro de 2020, foram gastados 78 milhões de euros, sendo o clube que mais investiu em reforços naquela ocasião.

Ao invés de optar por atletas rodados, o dinheiro foi gasto em jogadores jovens, indicando que o time estava pensando em um planejamento de longo prazo. Os nomes contratados foram: Santiago Ascacíbar, Lucas Tousart, Matheus Cunha e Krzystof Piatek.

Quando se trata de uma reformulação de elenco, jogadores chegando no decorrer da temporada, é difícil exigir resultados imediatos, ainda mais quando os reforços são atletas jovens. Só que a situação fora de campo, também não ajudava. Ante Covic foi demitido depois de vencer apenas quatro de 14 jogos. Para seu lugar, entrou Jurgen Klinsmann, lenda do futebol alemão e que trabalhava no conselho do clube. Sua passagem durou dez jogos e foi dispensado depois de brigar com meio mundo dentro do clube. Por último, veio Bruno Labbadia, que deu uma estabilizada e levou o Hertha ao décimo lugar.

Para a temporada 20/21, podendo realizar uma preparação melhor com os jogadores que haviam chegado na janela anterior, além do acréscimo de novas contratações, em que foram gastos 31 milhões de euros, sendo metade do valor usado em Jhon Córdoba, centroavante que atuava pelo Colônia. Outro bom nome foi Alexander Schwolow, goleiro que vinha de boas temporadas com a camisa do Freiburg. Em janeiro, para tentar agregar mais experiência ao elenco, veio Sami Khedira, mas a passagem do volante campeão da Copa do Mundo durou seis meses, já que se aposentou ao final da Bundesliga. 

Por mais que os reforços tenham vindo por valores relativamente altos, ninguém esperava ver o Hertha brigando com Bayern de Munique pelo título alemão, mas havia uma expectativa que a Velha Senhora pudesse ser um time do segundo escalão, brigando com RB Leipzig, Bayer Leverkusen e Borussia Monchengladbach por vaga em competições europeias. O tiro saiu totalmente pela culatra.

Labbadia foi demitido depois de um primeiro turno tenebroso. Venceu quatro jogos, deixando o time em 13° lugar. Para seu lugar, entrou um velho conhecido da torcida, Paul Dardai. O antigo volante teve 15 temporadas dedicadas ao clube como jogador e já havia treinado o Hertha de 2014 até 2019, quando optou por descer alguns degraus na carreira e trabalhar nas categorias de base. A situação não mudou com o novo técnico, que deixou o time em 14°.

Só que os reforços tão badalados, pouco entregaram em Berlin. Piatek anotou apenas 13 gols até ser emprestado para a Fiorentina. Córdoba ficou um ano e foi vendido ao Krasnodar. Schowlow chegou a perder o posto de goleiro titular para o experiente Rune Jarstein. Os únicos jogadores que realmente entregaram resultados foram Ascacíbar, Tousart e Matheus Cunha. O brasileiro, aliás, em muitos momentos tirou o Hertha do sufoco. Mesmo fazendo sua parte, o restante do elenco não ajudava, como no duelo contra o Borussia Dortmund, em que anotou dois gols e o time perdeu de 5 a 2.

Para a atual temporada, não havia nenhuma expectativa em volta do Hertha. A prova disso foi o mercado de transferências, bem diferente dos últimos dois anos. Mesmo com a chegade de jovens promissores, como Suat Serdar, Marco Richter, Jurgen Ekklenkamp e Myziane Maolida, o que vimos foram atletas experientes sendo contratados, destaque para Kevin Prince Boateng, que, aos 34 anos, retornou ao time que o revelou. Detalhe, o ganês estava atuando pelo Monza, na Série B italiana, e sequer era titular absoluto da equipe.

Matheus Cunha, percebendo que o projeto fracassou, rumou para o Atlético de Madrid. Em seu lugar no ataque, vieram Ishak Belfodil, Stefan Jovetic e David Selke, que retornava de empréstimo após dois anos no Werder Bremen.

Dentro das quatro linhas, o Hertha seguia com um desempenho medíocre. Com o time ocupando a parte intermediária da tabela, Dardai foi demitido na 13° rodada. Tayfun Korkut entrou no lugar do húngaro e, com apenas duas vitórias em 14 jogos, também foi para a rua. Em situação desesperadora na tabela, ocupando a 16° posição, recorreu a Felix Magath. Aos 68 anos, o treinador tricampeão da Bundesliga não trabalhava desde 2017, após dois anos no Shandong Luneng, da China.

A vinda de Magath era um total incógnita, tirando seu tempo na China, o último grande trabalho havia sido na temporada 09/10, quando foi vice-campeão da Bundesliga com o Schalke 04. Depois, passou sem muito destaque por Wolfsburg e Fulham até ir para a Ásia.  

Na reta final da Bundesliga, a briga do Hertha era contra o Stuttgart. No duelo direto, na 31° rodada, o time da capital fez sua parte e venceu por 2 a 0, ocupando assim a 15° posição. Na última rodada, um desafio indigesto: Borussia Dortmund, no Signal Iduna Park. Um empate era o suficiente para manter a Velha Senhora na primeira divisão. O 1 a 1 no placar era mantido até os 41 do segundo tempo, quando Moukoko marcou o gol da vitória para os mandantes e, somado com a vitória do Stuttgart, jogou o Hertha para a zona de playoffs.

Encarando o Hamburgo, terceiro colocado da 2. Bundesliga, Jogando no Estádio Olímpico, o Hertha sucumbiu e perdeu de 1 a 0. Detalhe que o Hamburgo foi muito melhor na partida e criou mais chances. Do lado berlinense, víamos um time sem criação de jogadas, em que o goleiro e defensores sempre fazendo a ligação direta, para explorar o jogo físico de Belfodil, além de um número excessivo de cruzamentos para a área, que quase sempre eram afastados pelos zagueiros adversários.

Só que o Hertha mudou a postura para o jogo da volta. As entradas de Ascacibar, Boateng e Jovetic deixaram o time mais agressivo, que, até fugiu dos padrões de Magath, jogando com pressão alta e sufocando o adversário. Desta vez, jogando muito melhor que o Hamburgo, o time da capital venceu por 2 a 0 e se garantiu na próxima temporada da Bundesliga.

Mesmo com a permanência, resta saber se Windhorst seguirá investido em reforços. Em entrevista, o investidor disse que analisando o momento atual, se arrepende de ter gastado tanto dinheiro em contratações, mas que ele não desistirá de fazer o Hertha um time grande, por mais que isso possa demorar muito tempo.

Outra situação envolvendo Windhorst é com o presidente Werner Gegenbauer, que comanda a instituição há 14 anos. O magnata só pretende manter seus investimentos caso Werner deixe a presidência. O conselho pediu para que ele renunciasse o cargo, mesmo que seu mandato vá até 2024.

Para o Hertha Berlin, resta juntar os cacos de mais uma temporada ruim e rever todo o seu projeto esportivo. A primeira coisa que precisa ser pensada é no comando técnico. O contrato de Magath era até o final da Bundesliga e dificilmente permanecerá para 22/23. Desde a chegada de Windhorst, foram sete treinadores na casamata. Como um time terá algum padrão de jogo diante de tantas mudanças? E quase impossível dar certo.

Os dirigentes precisam identificar um treinador que se encaixe com as características do elenco e parar de fazer apostas, como foram nos casos de Covic e Korkut. Por mais que seja difícil de encontrar alguém que queira assumir esta bomba, principalmente alguém que já trabalhe dentro da Alemanha, poderiam ver treinadores em outros mercados, que queiram mostrar serviços em uma liga mais competitiva.

Inicialmente, a ideia de apostar em jogadores jovens parecia muito boa. Porém, a vida real não é o modo carreira do Football Manager, em que você contrata uma série de atletas promissores e já sai levantando taças. É um processo que demanda tempo e, para dar certo, o time precisa ter um técnico bem definido, para que todos assimilem o estilo de jogo da equipe.

Lógico que é importante ter uma mescla de jovens e experientes. Mas os medalhões, deveriam ser jogadores que agreguem ao grupo. Apostar em Khedira, por exemplo, escanteado na Juventus e com problemas cardíacos, não ajudaria em nada o time, apesar do currículo extremamente vencedor.

E, se não bastasse todos os problemas enfrentados, o Hertha ainda precisar ver seu rival, o Union Berlin, com um elenco bem mais humilde e sem gastar rios de dinheiro, montar um time competitivo e terminar na parte de cima da tabela. Desde que subiu para a primeira divisão em 2019, classificou-se para uma competição europeia pelo segundo ano consecutivo.

Atualização

Os bastidores do Hertha Berlin começaram agitados após a permanência do time na Bundesliga. 

Uma série de jogadores já deixou o clube: o goleiro Nils Korber, o lateral-direito Lukas Klunter e o volante Niklas Stark. Este último, aliás, era um dos líderes do vestiário e vestiu camisa da Velha Senhora por sete temporada.

E atendendo aos pedidos de Windhorst, o presidente Werner Gegenbauer renunciou ao cargo no início da tarde. O atual vice, Thorsten Manske, assumirá a presidência até que uma eleição seja organizada.